Medicina Baseada na Evidência versus Medicina Apoiada na Evidência

1. Medicina baseada no Utente ou na Política?

A Medicina Baseada na Evidência (MBE) é um movimento de orientação para as práticas gerais dos médicos, tendo surgido na década de 70 do século XX com a publicação Effectiviness and Efficiency: Random collections on Health Services de Archibald Leman Cochrane. Com o crescimento global verificado nas últimas décadas, a explosão de procedimentos disponíveis e a consequente necessidade de padronizar métodos, hábitos e opiniões, a MBE veio ocupar um lugar de destaque na política e terapêutica quotidianas para salvaguardar a presença de métodos seguros e eficazes na prática clínica.

Caso se pretenda enquadrar a MBE no tempo, existe contudo a obrigação de afirmar que este movimento é relativamente recente e que antes do seu aparecimento já existia por todo o mundo um conjunto de métodos terapêuticos seguros e eficazes utilizados por aqueles que na época eram os responsáveis pela saúde dos cidadãos. Atualmente, a MBE não é no entanto devidamente enquadrada no tempo por alguns grupos com responsabilidades na área da saúde uma vez que se pretende estabelecer a ideia de que a Medicina sem uma base de evidência é uma atividade perigosa que coloca a vida em risco dos pacientes. Este pensamento não é historicamente válido uma vez que a Medicina já existia antes do aparecimento da MBE e os livros relatam inumeráveis casos de sucesso terapêutico nesse período. Para além destes factos, ao longo dos tempos verificaram-se diversos episódios de extremar de opiniões relativamente a tópicos chave na área da saúde para controlar ideias e/ou posições estratégicas, o que pode colocar em causa a motivação por detrás de quem atualmente tem uma postura de preconceito e/ou rejeição.

Posto isto, é de extrema importância estar então atento aos comportamentos territoriais de determinados elementos sociais uma vez que não é uma característica própria de um ato médico mas uma característica de natureza humana de construção de barreiras e/ou fronteiras e de domínio sobre os demais. O estar atento para este facto torna-se ainda mais importante se tivermos em consideração que a Organização Mundial da Saúde (OMS) deixa claro em inúmeros artigos publicados que é fundamental a inserção das Medicinas Tradicionais (termo utilizado pela OMS) nos Sistemas Nacionais de Saúde, e que a questão social em Portugal está centrada na discussão sobre a classe profissional dominante quando deveria estar dirigida para a reflexão sobre as melhores estratégias de integração e cooperação entre os profissionais com habilitações comprovadas.

2. O risco da Medicina Tradicional ficar presa à MBE

Para dar seguimento à reflexão e para que esta seja conclusiva, é fundamental estreitar a rede de observação uma vez que a visualização de uma imagem geral nem sempre permite a chegada a um entendimento. Assim, e tendo em conta uma das áreas das Terapêuticas não Convencionais reconhecidas em Portugal – a Medicina Tradicional Chinesa (MTC) – é imperativo colocar a questão: é possível que a MTC se transforme numa MBE? A resposta a esta questão é simples, e é “Sim!”. Porém, se fizermos uma pequena alteração da questão e se questionarmos se é aceitável que a MTC seja uma MBE, a resposta aí será diametralmente oposta, isto é, “Não!”. É certo que esta última resposta pode agitar as certezas dos defensores da MBE, no entanto é imperativo que esta análise seja feita pelos especialistas da MTC e pelos profissionais da Medicina Convencional uma vez que não é intelectualmente honesto colocar duas terapêuticas com métodos de diagnóstico e de tratamento próprios e diferentes na mesma balança de observação científica.

De forma resumida, a MTC é uma Medicina milenar que atualmente trata milhões de cidadãos em todo o Mundo, que tem um método específico de diagnóstico diferencial e de tratamento dirigido e que não tem qualquer restrição que impossibilite a realização de ensaios clínicos. Contudo, a MTC por ser uma Medicina Humanista e Holística apresenta características na sua base filosófica que quando são transpostas para o método científico dificultam o processo e obrigam a uma adaptação de modelo.

Na abordagem clínica, o especialista de MTC aborda o paciente como um ser único e, por motivos de conduta ética, o investigador deve agir de igual forma. Porém, em segunda instância as consequências desta conduta são apenas o exemplo de um enorme desafio que o investigador terá que ultrapassar para construir amostras representativas. Caso o investigador ignore o paradigma de base da MTC e dê primazia ao método científico e à categorização superficial dos indivíduos, poder-se-á provocar uma colagem precipitada da MTC à MBE e ignorar-se-á aquilo que de mais precioso a MTC tem: o seu diagnóstico.

Assim, se a teimosia decorrente do comportamento primitivo referido anteriormente se sobrepuser ao bom senso de conservação das práticas tradicionais, levar-se-á à decisão social de colar dois elos que juntos não criam uma equação perfeita, e cometer-se-á um erro histórico de destruição da raiz duma Medicina que apenas resistiu à passagem do tempo porque os seus profissionais validaram diariamente os seus métodos através dos resultados obtidos num regime de proximidade ao paciente.

3. A necessária adaptação da MBE a um novo “antigo” paradigma

Neste momento embora já não se coloque a questão sobre a importância da inclusão da MTC e de outras Terapêuticas não Convencionais nos Sistemas Nacionais de Saúde até porque segundo Margaret Chan (2013), antiga diretora- geral da OMS, “em todo o mundo, a Medicina Tradicional é o pilar da prestação de serviços de saúde”, ainda resiste a necessidade de esclarecer como é que o método científico pode ser uma mais valia para a MTC.

A resposta para esta questão é das mais complexas que se poderá encontrar e coloca em causa inclusivamente a própria utilidade da MBE para a MTC e para outras terapêuticas com raízes metodológicas similares. Porém, para que se possa responder à questão de forma honesta e distante, é fulcral começar por um exercício de libertação de dogmas, de limpeza de egos e de flexibilização do raciocínio.

A MTC antecede à MBE e o seu paradigma dá primazia à análise do indivíduo em detrimento do grupo enquanto que a MBE dá primazia à análise do grupo em detrimento do individual. Compreendendo isto, é óbvio que ambas se situam em

pontos opostos de método e que o caminho correto para a MTC não pode passar pela transformação desta terapêutica numa MBE. Para que a essência da MTC não se perca e o melhor da MBE seja aproveitado em prol desta Medicina Tradicional, é então necessário que surja um movimento que aproveite os métodos da MBE mas que se distancie desta naquilo que é a aplicabilidade à prática clínica. Esse movimento deve assentar na ideia duma Medicina Tradicional que mantém a sua raiz metodológica de personalização do tratamento ao indivíduo, que não depende da evidência para o seu exercício e que sabe recorrer a esta sempre que necessário. Se assim for, e se a isso se juntar a conservação da análise de sistemas energéticos integrados em detrimento da análise de sistemas fisiológicos isolados, a MTC pode ser vista como uma terapêutica autónoma e enraizada nos seus fundamentos de base e como uma terapêutica que se apoia na evidência em vez de uma terapêutica que se baseia na evidência. Caso essa adaptação seja realizada com sucesso, os profissionais de saúde da MTC que trabalhem neste novo regime de Medicina Apoiada na Evidência (MAE) devem continuar a procurar a padronização das suas práticas e de aperfeiçoamento e sistematização dos seus métodos e têm a obrigação de não ignorar o conhecimento tradicional que foi validado pelo tempo e pela prática clínica.

4. Os desafios da Medicina Apoiada na Evidência

A aceitação de que a evidência deve ser um apoio à prática clínica, e não à Medicina em si, não será fácil de ser aceite nos tempos vindouros uma vez que o ser humano por motivos relacionados com segurança procura há milénios por respostas que sirvam a todos. A necessidade pela obtenção das respostas únicas que podem dar conforto rápido às questões colocadas, são facilmente “compráveis” pelo homem e podem levar a que este adopte para si mesmo respostas de um todo do qual não faz parte. A MBE, enquanto instrumento de respostas gerais, atualmente ocupa essa função e ideologicamente alguns dos seus seguidores têm comportamentos que indicam não haver abertura para o surgimento dum novo movimento, neste caso o da MAE que será necessário e fundamental para o exercício das Medicinas Tradicionais no próximo milénio.

Nesse sentido, e em jeito de conclusão, é preciso estar atento e garantir que não se repetem algumas tristes histórias do passado porque se um dia a religião ocupou um lugar central enquanto promotora de respostas e elemento inquisitório de todos aqueles que ameaçavam o seu poder ou tinham práticas e pensamentos diferentes, hoje em dia a ciência procura ocupar o lugar de promotor de respostas colectivas e alguns homens ligados à ciência, devido a interesses que não vão ao encontro de um bem maior para a humanidade, manifestam comportamentos disfuncionais e inquisitórios “em nome da ciência”.

Pascoal Amaral, 29 de Março de 2019